Publicado 17 de Junho de 2010
Sabe quando você está quase dormindo, indo e vindo, até que seu último pensamento, seu último pulso de consciência, é peça principal de uma complexa e estimulante teoria que só se revela estapafúrdia quando você desperta segundos depois? Exemplo: você está pensando na sua chave que ficou sobre a mesa; pega superficialmente no sono e imagina que, se essa chave estivesse sob a roda de um carro, mudaria de cor e seria perfeita para flambar um abacaxi; aí, você desperta e, apesar de sacar que tratava-se de um absurdo total, não consegue lembrar de quase nada; em seguida esquece de todos os detalhes e conexões pseudológicas e... Puf, se foi.
Talvez você tenha se identificado com essa minha sensação quase sonâmbula, talvez não. Mas foi ela que resgatei ao ver o último episódio de “Lost”. E foi por dois motivos. O primeiro é que essa pode ter sido uma das inspirações dos roteiristas ao criar a cruzada interior de cada personagem (ou só do Jack, enfim) e das trançadas malhas que sua imaginação o levou a tecer no pré-morte - como no meu pré-sono. O segundo motivo é que, assim como pelo meu sonolento devaneio, me senti totalmente ludibriado. A promessa dos produtores de que tudo seria explicado não foi cumprida. E, cá entre nós, foi uma solução preguiçosa e óbvia demais para resolver o emaranhado de situações absurdas que criaram. Isso sem falar que o ‘grand finale’ não foi nada mais do que a teoria inicial, levantada por qualquer babaca antes mesmo de ver o primeiro capítulo, ao ler apenas a sinopse da série ou os releases lançados para a imprensa.
Não me arrependi de ver “Lost” por seis anos. O último capítulo (18) representa apenas cerca de 0,75% da série. Os outros 99,25% foram entretenimento da mais alta qualidade. Mas é que fica um retrogosto complicado de assimilar.
***
Sempre me envolvo com Copas do Mundo. Não há como não. Mas nesta, em especial, terei motivo extra. Minha filha de cinco anos está em idade interessante para a experiência. É curiosa por países, bandeiras, jogos e pessoas. Aproveitei para voltar a ser criança. Na Copa da Espanha, em 1982, ganhei o álbum de figurinhas do Ping-pong. Vinha uma por chiclete. Tinha sete anos - quase oito - mas os jogadores das seleções ainda estão na memória. Hoje em dia, os cinco de minha filha equivalem aos meus sete da época, ou a mais. Não tive dúvidas: "Malu, vamos comprar um álbum da Copa?". "O que é Copa, pai?". Comprei. A publicação é oficial da Fifa. Caprichada, igual para o mundo inteiro e escrita em oito línguas simultâneas. Custa R$ 3,90. Cada pacotinho com cinco cromos, R$ 0,75. Levamos 10; 50 figurinhas. Ao todo, são 638. "Puuu!" Quase me arrependi. "Vou gastar mais de 100 paus se nunca vierem repetidas, ou seja, muito mais! Mas o que é uma expulsão aos 45 do segundo tempo?" Abrimos os envelopes sobre a mesa e falei que antes de colarmos tínhamos que organizar em ordem numérica. Criei uma linha para cada centena e deixei com ela a ordenação. Depois de breve explicação, fez tudo sozinha, com poucos deslizes e velocidade esperada. Em menos de meia hora estávamos colando. Pena: veio apenas uma do Brasil, mas 4 da Costa do Marfim. As prateadas eram suas preferidas.
Agora estou tentando convencer meus amigos pais e mães a comprarem também. Além da troca de figurinhas e do jogo de bafo serem as partes mais legais de todo álbum, é a única chance que tenho de completá-lo sem ficar pobre.
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