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CINEMA

Clint Eastwood une esporte e vida de Nelson Mandela em "Invictus"

Publicado 31/01/2010 18:20

Logo após o fim do apartheid, no início da década de 1990, a África do Sul continuava com todos os cacoetes de um povo dividido. Herói do movimento que acabou com preconceito criminoso entre brancos e negros, Nelson Mandela assumiu a presidência do país em 1994 disposto a derrubar barreiras e construir uma nação unida a partir dos escombros da anterior. Uma de suas armas para isso foi o esporte, faceta que Clint Eastwood resolveu explorar em "Invictus", seu trigésimo filme como diretor, que entrou em cartaz nesta sexta-feira (29) no Brasil.

Baseado no livro "Conquistando o Inimigo", do jornalista John Carlin, o roteiro desde o início é bastante didático (talvez até demais) ao mostrar o conflito sul-africano. Na primeira cena, brutamontes altos e loiros, devidamente equipados, praticam rúgbi, jogo truculento originário do Reino Unido, os colonizadores. No campo do outro lado da estrada, crianças negras descalças disputam uma pelada despretensiosa. O contraste ilustra bem a divisão do país: o rúgbi era o esporte preferido dos brancos, enquanto os negros nem sequer sabiam suas regras, dando bola, isso sim, para o futebol. Exemplo claro de que a divisão continuava embrenhada na sociedade.

Sem deixar de lado questões essenciais para o desenvolvimento de seu país, Mandela percebeu que o rúgbi era uma questão emblemática desse apartheid velado e teve o estalo: se a África do Sul fosse vencedora da Copa do Mundo, da qual seria país-sede no ano seguinte, a vitória seria uma vitrine importantíssima de sua unificação para o mundo e para os próprios sul-africanos, ainda machucados por décadas de segregação. Ferida, aliás, retratada em diversos núcleos dramáticos: os seguranças da presidência, a família dos jogadores, a vida nas favelas da Cidade do Cabo.

Há anos Morgan Freeman lutava para levar às telas o livro "Longo Caminho para a Liberdade", autobiografia de Mandela, sendo que o ex-presidente em pessoa dizia para quem quisesse ouvir que o ator seria a opção ideal para interpretá-lo. O projeto não foi adiante, mas Freeman levou o roteiro de "Invictus" a Eastwood – seu parceiro nos premiados "Os Imperdoáveis" e "Garota de Ouro" –, que topou na hora. O pilar dessa história é o esporte, mas a ideia original de Freeman prevalece, já que a vida e conduta de Mandela são a lição maior de todo esse quadro.

A interpretação dele, aliás, é um dos trunfos do filme. Se o sotaque de Madiba – como Mandela era carinhosamente chamado por seus aliados – parece artificial ou exagerado nalguns momentos, o carisma, charme, personalidade e inteligência política do líder permanecem intocados, sem contar a semelhança de Freeman com o biografado.

Matt Damon é o coadjuvante de luxo. Ele interpreta François Pienaar, capitão do desacreditado time de rúbgi sul-africano, e para cumprir a tarefa à altura, ganhou bons quilos de massa muscular. Se Mandela já não era suficiente como exemplo de superação, mensagem nem tão subliminar de todo o filme, Pienaar trata de fechar a conta e mostrar que sim, com raça e dedicação tudo é possível. Essa "moral", digamos, é justamente o tema de "Invictus", poema de William Ernest Henley que ajudou Mandela a superar quase 30 anos de prisão e que também serviu de inspiração para o jogador. Não podia ser mais claro.

Eastwood conduz as cenas com o estilo clássico de sempre, alternando a corda-bamba de Mandela no novo governo, as críticas que a seleção sul-africana recebe por todos os lados e a vida pobre nas favelas com doses certeiras de sensibilidade e tensão. Tensão que é exacerbada nas violentas partidas de rúgbi, uma espécie de futebol americano sedento de sangue. Já se sabe o resultado, no entanto o trunfo do filme é justamente conseguir deixar o espectador na beira da poltrona, ansioso pelo desfecho. Clint pode até ser piegas, mas o astro preferido pelos norte-americanos sabe muito bem o que quer e como fazê-lo. Ele acertou mais uma vez.
 

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Fonte: ultimosegundo

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